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Servidora negra e trans é aprovada em mestrado da UFJF

Dandara Oliveira, integrante do Coletivo LGBTQI+ da Condsef, pesquisará a trajetória de pessoas transgêneras no mercado de trabalho de Juiz de Fora. Conquista coaduna com a luta do Dia de Combate à violência contra a mulher


Servidora negra e trans é aprovada em mestrado da UFJF
Foto: Reprodução/Facebook

Condsef/Fenadsef

A servidora federal Dandara Oliveira tem muito o que comemorar neste 25 de novembro, Dia Internacional de Combate à violência contra a mulher. Técnica em saúde da Universidade de Juiz de Fora, ela foi uma das aprovadas no mestrado em Serviço Social da instituição onde trabalha e ocupa o orgulhoso título de primeira transexual negra a conquistar o feito. Pelos próximos dois anos, Dandara pesquisará a trajetória de pessoas trans no mercado de trabalho da cidade que habita.

Para a servidora, a aprovação não é uma vitória individual, mas representa o êxito das mulheres negras e transexuais em lutas históricas por inclusão e respeito. "Minha aprovação coaduna com o enfrentamento pela erradicação da violência contra as mulheres. Acessar a academia faz, sim, com que o número [de crimes] diminua", comenta Dandara. 

"Nós, pessoas transexuais, não conseguimos acessar o mercado de trabalho e a academia por causa da expulsão escolar, ambientes que não ajudam as pessoas [trans] a se formarem, não respeitam o nome social, não respeitam o uso do banheiro, e expulsam essas pessoas. Muitas de nós, como forma de sobrevivência, só conseguem trabalho na prostituição, que é uma prostituição compulsória, inclusive. É neste lugar que a violência opera", explica a mais nova mestranda da UFJF.

Dandara, que é Secretária de Combate à Discriminação do Sindsep-MG e integra o Coletivo LGBTQI+ da Condsef/Fenadsef, reconhece que sua conquista hoje ajudará outras pessoas iguais a ela a terem mais acesso e um futuro melhor, com menos violência. "Foram sete pessoas pretas aprovadas no mestrado e uma pessoa preta transexual, que sou eu. É quase metade das vagas e isso é muito significativo para pessoas que não têm acesso à educação nem ao mercado de trabalho", complementa.

Inserção no mercado de trabalho 

Taya Carneiro, mestra em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília e integrante da União Libertária de Travestis e Mulheres Transexuais (Ultra), realizou, em 2017, uma pesquisa qualitativa sobre a discriminação e os impedimentos de acesso das pessoas trans no mercado de trabalho do Distrito Federal. Ao lado de outros pesquisadores universitários, de organizações da sociedade civil e com financiamento da Embaixada da Suíça, Taya destacou alguns números relevantes durante audiência da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados.

Segundo ela, e de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 95% das mulheres trans estão na prostituição. O dado a fez questionar o que leva essa população a ter a prostituição como fonte de renda e de cidadania. Após entrevista com diversas pessoas trans e do recolhimento de depoimentos fortes (veja alguns no registro da fala de Taya Carneiro na audiência pública), a conclusão é de que, diante de tanto preconceito e de violências, a prostituição apareceu como menos opressiva do que o próprio mercado de trabalho.

"Olhem a situação das mulheres trans do Brasil! A prostituição ainda é melhor do que o mercado de trabalho formal. A situação está tão opressiva que as pessoas a preferem ao trabalho com telemarketing, como auxiliar de limpeza. Há também algumas questões que se misturam muito a machismo, racismo e classe social", denunciou Carneiro.

Mudanças positivas

Em junho deste ano, em texto especial escrito por Dandara Oliveira para o site da Condsef, para marcar o orgulho LGBTQI+, a servidora evidenciou a violência sofrida inclusive em espaços democráticos, como o serviço público. "Nós LGBTQIs jamais fomos contabilizados; o serviço público não fazia nossa vida confortável dentro dele, muito menos o movimento sindical, acostumado a representar um público masculino, heterossexual, branco de meia idade", criticou.

"O novo sindicalismo brasileiro sempre foi avesso a mulheres e LGBTQIs nos seus postos de decisão e poder. A Condsef, criada em 1990, só criou seu coletivo LGBTQI+, que funciona com poucas mãos de um núcleo duro e aguerrido, 29 anos depois de sua fundação. Essa que vos escreve é a primeira travesti preta a ocupar um posto de direção de um sindicato filiado à Confederação, e talvez seja a primeira da base da CUT", evidenciou. 

Não satisfeita com este feito, Dandara hoje acumula mais uma vitória pioneira com sua entrada no mestrado. E este é só o começo de um futuro mais justo e igualitário.






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