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(versão preliminar)

I ENCONTRO NACIONAL

DE MEIO AMBIENTE DA CUT

A CUT E A I CONFERÊNCIA NACIONAL
DO MEIO AMBIENTE

A luta ambiental e a nova conjuntura

A nova conjuntura brasileira traz consigo não apenas enormes expectativas, mas também possibilidades concretas de mudanças favoráveis aos interesses populares. Estas não virão automaticamente, pois o próprio caráter de coalizão nacional do governo indica a existência de interesses, visões e projetos contraditórios em seu interior. Assim, as políticas públicas são um campo aberto para as disputas entre esses diferentes projetos, e isso vale também para as políticas ambientais.
É inegável que as atuais condições são favoráveis para enfrentarmos esses desafios. Não só pelo compromisso programático do governo com o princípio da sustentabilidade, mas também por sua disposição em dialogar com os representantes da sociedade civil. A própria convocação da I CNMA, quaisquer que sejam seus limites, é uma evidência da ampliação real dos espaços para a participação dos movimentos sociais e entidades ambientalistas.
A atual situação sócio-econômica e ambiental do país não pode ser revertida de uma hora para outra, pois é o produto de séculos de exploração predatória das riquezas naturais. Na história mais recente do país, quando tem início o predomínio das relações de exploração capitalistas, o ritmo e as dimensões da degradação ambiental alcançaram níveis qualitativamente diferentes. Sob a égide do capital a apropriação predatória da natureza colocando em risco a própria vida e a sobrevivência do planeta.
Todas as variantes de políticas desenvolvimentistas implementadas no país até agora foram, sem exceção, marcadas pelo uso extensivo das riquezas naturais, pelo princípio da maximização do lucro ao arrepio das necessidades sociais e da qualidade de vida das camadas populares e da classe trabalhadora. As desigualdades regionais e sociais, o vergonhoso abismo que separa ricos e pobres, são apenas os aspectos sociais de um modelo de desenvolvimento ambientalmente insustentável e socialmente injusto.
Modificar esse quadro significa simultaneamente implementar políticas voltadas à recuperação e preservação ambiental e iniciar a trilha rumo a um novo paradigma de desenvolvimento, que combine justiça social com sustentabilidade.
Mas esse desafio não depende apenas de políticas governamentais, por mais importantes que sejam. Requer o engajamento dos movimentos sociais em todos os níveis, desde as instâncias nacionais até o nível local.
Sem essa intervenção as políticas públicas, por mais eficazes que sejam, não poderão concretizar-se em ações e medidas concretas, acabando por se perder nos meandros das burocracias ou, principalmente, esvaziadas e barradas por interesses contrários à sustentabilidade.
Esse último aspecto merece destaque, pois entre os paradigmas da sustentabilidade e o do desenvolvimentismo tradicional há mais que a presença ou ausência de uma "variável ambiental". São visões antagônicas de futuro, de desenvolvimento e de projeto social. O neoliberalismo, ao acentuar ao máximo a mercantilização da sociedade, acirrou ainda mais esse conflito, pois mesmo políticas ambientais paliativas enfrentam a oposição dos representantes do mercado.
No atual governo essas contradições se manifestam com frequência. Ministros como Roberto Rodrigues, da Agricultura, e Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, por exemplo, manifestam- posições favoráveis à liberação dos transgênicos, em conflito claro com as posições do Ministério do Meio ambiente (MMA).
Nesse contexto a própria transversalidade da política ambiental é prejudicada. Em muitos momentos surgirão conflitos entre o MMA e outros ministérios, expressando perspectivas, projetos e interesses diferenciados. Também não podemos subestimar a grande pressão que se coloca sobre o governo Lula para que este coloque o quanto antes o país na rota do crescimento econômico, com o objetivo de sanar ou atenuar os grandes males sociais que assolam o país. São anseios legítimos, que são frequentemente manipulados por setores que vêem no crescimento econômico apenas uma chance para elevar ainda mais o patamar de seus lucros.
Para nós um desenvolvimento econômico e social digno desse nome traduz-se na melhoria da qualidade de vida da população, além das necessárias elevações nos níveis salariais e de emprego.
O desenvolvimento que queremos deve compatibilizar sustentabilidade com justiça social e crescimento econômico. A perspectiva da sustentabilidade qualifica, confere perspectiva de longo prazo ao crescimento econômico, enfeixando numa única totalidade justiça socio-econômico-ambiental e crescimento econômico.
A CUT, em seus vinte anos de existência, sempre colocou as bandeiras de defesa do meio ambiente em sua agenda política. E, ao longo de sua história, cumpriu papel importante na luta ambiental, desde a pioneira luta dos seringueiros do Acre sob a liderança de Chico Mendes, a denúncia do descarte de resíduos tóxicos pela multinacional química Solvay na década de 80, passando pela intervenção importante em eventos internacionais como a Rio-92, Rio +5 e a Cúpula de Joanesburgo em 2002.
A realização da I Conferência Nacional do Meio Ambiente é uma oportunidade importante para os setores organizados da sociedade civil apresentarem suas propostas para os problemas socioambientais e para o avanço da luta por um Brasil sustentável e democrático. A CUT pode cumprir um papel importante nesse processo, e com esse objetivo estamos apresentando propostas para organizarmos a nossa intervenção em escala nacional nos diversos estados e regiões.

A Agenda Socioambiental da CUT

A discussão sobre o meio ambiente passa por várias frentes e tipos de abordagens. O movimento sindical, diante de suas limitações, deve priorizar alguns deste campo e concentrar esforços para conseguir ações efetivas.
A CUT vem tratando dos diversos temas ambientais, como a agenda 21, a Amazônia, sociedade sustentável, a poluição urbana, políticas de reciclagem, transgênicos, mineração, código florestal e mineral entre outras questões e hoje surgem novos desafios como a utilização dos recursos hídricos e legislação, a discussão mais aprofundada sobre desertificação e seca e outros temas que pouco foram tratados e para os quais a CUT ainda não declinou opinião.
Assim, devemos estar atentos às novas políticas, debatendo e elaborando, mas devemos priorizar ações mais efetivas junto ao movimento sindical e a sociedade. Exemplo disto foram as manifestações organizadas pela CUT contra o Apagão e as privatizações no setor energético, bem como a realização da Caravana das Águas.
Entendemos que a CUT deve avançar na luta socioambiental, instrumentalizando os dirigentes sindicais nessa luta e estimulando assim o envolvimento de suas instâncias e sindicatos filiados.
A CUT é uma central comprometida com a luta por uma sociedade justa, democrática e igualitária, o que implica necessariamente numa sociedade baseada na sustentabilidade, pois a atividade econômica deve se sujeitar em primeira instância às restrições de ordem ecológica. Nessa luta, a sociedade industrial deve ser transformada, visando novas formas de apropriação da natureza, garantindo a sustentabilidade dos recursos naturais e a manutenção ou ampliação dos postos de trabalho.
Nesse sentido devemos também aprofundar a discussão sobre a relação trabalho, produção e consumo, priorizando as propostas de encaminhamento já aprovadas em outros congressos e plenárias
A CUT entende ser uma falsa questão a incompatibilidade entre preservação ou recuperação do meio ambiente e a manutenção ou geração de novos postos de trabalho. A atual forma de exploração da natureza nos levará ao agravamento das crises ambientais, com o esgotamento dos recursos naturais e a destruição do meio ambiente, por conseqüência, os postos de trabalho serão também eliminados. Esta realidade expressa a grande contradição entre capital e natureza que é parte inseparável da contradição capital e trabalho.

A luta ambiental sob a perspectiva do Mundo do Trabalho

Os trabalhadores, estando presentes nos diversos setores produtivos, são atores centrais deste processo e sofrem as conseqüências deste modelo predatório. Assim, a luta sindical e ecológica se fundem na busca por uma sociedade sustentável em que a apropriação da natureza se dê de outra forma.

É por isso que a CUT deve priorizar a luta em defesa do meio ambiente e da qualidade de vida e posicionar-se sobre as questões fundamentais no cenário mundial acerca do meio ambiente com respostas ágeis sobre esta questão, partindo da compreensão de que o planeta é único, que as crises ambientais são um problema de todos e que os trabalhadores e as camadas populares são os principais afetados por essa crise.
A nossa prioridade deve ser ligada à relação entre trabalho e meio ambiente , sempre procurando demonstrar que é o trabalho que transforma a natureza e a apropriação da mesma esta subordinada ao modo de produção vigente , capitalista ,que agora passa a dominar e se apropriar da natureza no seu nível mais elementar que são as células , hoje já patenteadas.

A dimensão internacional da participação da CUT

Para dar conseqüência a essa compreensão política, a CUT soma esforços às atividades desenvolvidas pela Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres (CIOSL) e Comissão Sindical Consultiva da Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (TUAC/OCDE), no âmbito das organizações internacionais como a Comissão para o Desenvolvimento Sustentado da Organização das Nações Unidas (CDS/ONU), Organização Internacional do Trabalho (OIT), Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e a própria OCDE.
Participando de forma ativa e contributiva das reuniões anuais da CDS/ONU desde 1995, como integrante da delegação internacional de sindicatos organizada pela CIOSL, conseguimos que o Acordo Nacional Tripartite do Benzeno no Brasil - construído com a luta dos trabalhadores e dos sindicatos cutistas -, fosse reconhecido pela CDS/ONU como um modelo mundial de Acordo Voluntário, pelas suas características de participação dos trabalhadores desde o local de trabalho até a gestão nacional do uso regulamentado desse produto químico cancerígeno.
É esse modelo de participação dos trabalhadores e dos sindicatos na solução dos problemas ambientais desde o local de trabalho até o âmbito nacional, que queremos consolidar como uma prática sindical cutista que incorpora a dimensão social nas questões relativas ao desenvolvimento econômico e a proteção do meio ambiente.
Nesse sentido, estivemos comprometidos com o processo de organização da Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável que se realizou em Joanesburgo em setembro de 2002, e estaremos presentes em outros eventos e atividades de caráter nacional ou internacional onde se possa avançar na luta por uma sociedade sustentável.
Participamos ativamente do Encontro Anual do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Desenvolvimento Sustentável, e do Encontro da Sociedade Civil e Conferencia Regional Preparatória dos Estados de América Latina e Caribe, realizadas no Rio de Janeiro no período de 17 a 24 de outubro de 2001.


Transversalidade e abrangência da luta ambiental

Tendo em vista que o conceito de sustentabilidade incorpora temas da agenda sindical cutista, como erradicação da pobreza, mais e melhores empregos, fim do trabalho infantil e do trabalho escravo ou forçado, gestão racional do uso de produtos químicos, sistemas e modelos sustentáveis de energia, relação da saúde do trabalhador com a saúde pública, gestão racional e participativa das florestas entre outros, devemos fortalecer o trabalho de informação e capacitação de sindicalistas sobre esses temas em nossas atividades de formação sindical, incorporando esse conceito e essa agenda às nossas atividades permanentes e à nossa estratégia sindical.
Precisamos também introduzir na discussão nacional com órgãos governamentais, entidades empresariais e parceiros sociais, a necessidade de se avaliar o impacto sobre o emprego nas negociações internacionais sobre mudanças climáticas (comércio de cotas de emissão de gases nocivos à camada de ozônio), que ocorrem no lastro do Protocolo de Kyoto.

Por Melhores Condições de Trabalho

Na sociedade em que vivemos as relações de produção são marcadas pela exploração do Trabalho pelo Capital e pela natureza alienante do trabalho. O trabalhador é submetido à opressão cotidiana, a condições insalubres de trabalho. A luta por uma sociedade sustentável significa lutar contra essas condições, contra essas relações de produção exploradoras e alienantes.
Não existem locais de trabalho sustentados se esses causam mortes, mutilações e doenças, bem como agressões ambientais com o uso de tecnologias inadequadas, emissão de poluentes e geração de resíduos.
Não existem processos e relações de trabalho sustentado se não há o reconhecimento do direito de organização e negociação sindical no local de trabalho ou se existem práticas anti-sindicais colocadas.
Precisamos também ampliar para o campo da gestão ambiental nossa capacidade de mobilizar os trabalhadores e firmar acordos coletivos de trabalho, abrangendo temas como o controle e redução de emissões de poluentes, participação dos trabalhadores nas auditorias sobre segurança e saúde no trabalho e meio ambiente, participação dos sindicatos do setor químico no programa Atuação Responsável da indústria química e outros, tendo como referencia os termos do Acordo Nacional Tripartite sobre o Benzeno.
Temos que ter claro que postos de trabalho, locais de trabalho, processos e relações de trabalho insustentáveis são a receita certa para o dano à saúde e integridade física do trabalhador, o desemprego, o atraso social, o dano ambiental, o aumento do custo dos serviços de saúde, o risco do futuro da previdência social, o atraso do nosso projeto de nação.

Ampliando a luta

Tendo isso em conta, devemos aproximar-nos dos governos e autoridades locais, ampliar nossa parceria com ONG's do campo progressista e de caráter socioambiental (a exemplo do GTA, FASE, Vitae Civilis, ISA, IDEC, Instituto Terrazul, CEA), compreender e apoiar a luta das comunidades locais, realizar alianças com associações de consumidores, apoiar iniciativas que visem desenvolver nossa capacidade tecnológica e defender junto aos órgãos ambientais de governo, a introdução de análises e indicadores sociais que funcionem como parâmetros para a elaboração de políticas públicas e governamentais dirigidas para a sustentabilidade.

As CUTs Estaduais e as pré-Conferências nos estados

O Ministério do Meio Ambiente convocou a I CNMA com o objetivo de fortalecer o SISNAMA, convocando o conjunto da sociedade para participar desse debate. A Conferência Nacional será precedida de pré-Conferências Estaduais que elegerão os delegados ao I CNMA. Embora os critérios de participação e eleição de delegados estejam baseados em critérios distorcidos, por não refletirem as diferenças demográficas dos estados, consideramos que a participação das CUTs estaduais nas pré-Conferências estaduais é de grande importância, pois nos proporcionará um acúmulo importante para a nossa Central no âmbito da luta pelo meio ambiente. Esse acúmulo será fundamental para balizar as nossas propostas e a nossas intervenções na I CNMA, com um conjunto de propostas concretas que refletem as diferentes realidades das regiões e estados.
Para tanto, a CUT, através da Comissão Nacional de Meio Ambiente, orienta as CUTs Estaduais a realizarem Encontros Estaduais de Meio Ambiente com o objetivo de:

1. Preparar a participação das CUTs Estaduais e sindicatos filiados nas pré-Conferências Estaduais
2. Mapear os problemas e conflitos socioambientais no Estado
3. Mapear as entidades e movimentos comprometidos com a causa socioambiental potencialmente aliados da CUT
4. Mapear os principais setores e agentes adversários da sustentabilidade
5. Organizar Comissões Estaduais de Meio Ambiente da CUT
6. Definir lutas e campanhas socioambientais

A realização dos Encontros Estaduais é de suma importância para que as CUTs Estaduais e sindicatos filiados possam intervir de forma organizada nas pré-Conferências Estaduais e possam, também alavancar uma intervenção sistemática e permanente nas lutas socioambientais em todos os estados e regiões.

A intervenção das CUTs Estaduais nas lutas ambientais

A seguir algumas orientações para a participação da CUT nos estados:

" Participar de instâncias e órgãos abertos à participação da sociedade civil como Conselhos Estaduais e Municipais de Meio ambiente, Comitês de Bacia, etc., apresentando propostas que atendam os interesses da classe trabalhadora e da população pobre;
" Mapear e estabelecer uma relação política com entidades e movimentos comprometidos com a causa ambiental e com movimentos populares;
" Participar na implantação da Agenda 21 Local;
" Realizar uma pesquisa visando conhecer os principais focos de conflito socio-econômico-ambiental na região e os agentes sociais envolvidos;

I Encontro Nacional do Meio Ambiente da CUT

A CUT, através da sua Comissão Nacional de Meio Ambiente, está convocando o I ENCONTRO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE DA CUT, para os dias 06 e 07 de outubro, com local a ser definido e data a ser confirmada. A meta do I Encontro Nacional será, além de definir metas organizativas e políticas da CUT Nacional e das CUTs Estaduais na luta socio-econômico-ambiental, organizar a nossa intervenção na I CNMA, realizar um balanço das pré-Conferências Estaduais.
Partindo da avaliação da atual conjuntura nacional e das considerações anteriormente expostas, as lutas e desafios colocados pela agenda socioambiental são imensas, e exigirão respostas rápidas e organizadas de nossa parte. Assim, a realização do I ENCONTRO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE DA CUT será um momento de extrema importância para que nos capacitemos diante dessas tarefas.
As discussões do I Encontro deverão abordar as seguintes questões:

1. Meio Ambiente e Soberania Nacional:
- Amazônia
- Recursos Hídricos
- Biodiversidade
- Transgênicos
2. Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico e social
- Infra-estrutura
- Matriz Energética
- Agricultura, pecuária, recursos pesqueiros e florestais
3. Meio ambiente Urbano
- Saneamento Básico
- Energia
- Resíduos sólidos
- Infra-estrutura urbana, transportes e investimentos
- Preservação ambiental
4. Meio Ambiente e Trabalho
- Ambiente de Trabalho
- Áreas Contaminadas
5. A CUT e o conceito de sustentabilidade
6. Agenda 21 na Indústria
7. Balanço das pré-Conferências Estaduais e Intervenção da CUT na I CNMA
8. Comissão Nacional do Meio Ambiente e Comissões Estaduais de Meio Ambiente
9. Agenda de lutas e campanhas socioambientais da CUT

A programação do Encontro será definida posteriormente, em cuja ocasião estaremos informando todas as CUTS Estaduais, Confederações, Federações e demais entidades cutistas.

 

Comissão Nacional de Meio Ambiente da CUT
SPSO-CUT

by wke